quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Saída nas pequenas soluções

Soluções descentralizadas e regionais para a gestão energética são mecanismos viáveis à implantação de cidades sustentáveis no Brasil. A avaliação é do professor Sabetai Calderoni, consultor do Banco Mundial e das Nações Unidas (ONU), que esteve em Fortaleza, participando do XVII Encontro Nacional PEA Unesco. Para o autor do livro "Os bilhões perdidos no lixo", que é doutor em Ciências pela USP (FFLCH) e pós-graduado em Planejamento pela Universidade de Edimburgo (Grã-Bretanha), quando o assunto é energia renovável, iniciativas locais são ecologicamente mais corretas e economicamente vantajosas do que grades projetos de geração energética.
Entre as estratégias para gestão energética, o consultor destaca a importância da conservação, como a minimização, a redução do consumo e a utilização de novos processos produtivos e o reúso - reciclagem de fração seca, fração orgânica, compostagem e bio-digestão. No campo da geração, sua ênfase vai para a biomassa (resíduos, culturas agro-energéticas e etanol). "Soluções simples e baratas estão sendo implantadas em diversas partes do País, a exemplo do que já acontece na Alemanha, Bélgica, Itália, Japão e Espanha".

Conservação
O consultor já parte da constatação de que conservar energia dá mais resultados porque não há impacto ao meio ambiente como, por exemplo, a construção de grandes hidrelétricas, como Belo Monte, ou mesmo parques eólicos em dunas costeiras. Ou seja, a partir de pequenos projetos integrados, se consegue ter resultados mais efetivos. "Se você tem energia eólica e solar e cada prédio, não gasta com redes de transmissão, porque a geração vai direto do prédio para a caixa de força", exemplifica.
Para os que defendem grandes empreendimentos de geração solar com painéis fotovoltaicos, ele rebate com o exemplo do concentrador solar de foco fixo. O equipamento custa cerca de R$ 3 mil e pode ser utilizado para aquecimento de água e de fornos, aproveitamento energético e geração de vapor em hospitais, lavanderias, restaurantes e residências. No caso da energia eólica, sua alternativa aos mega parques é a adoção de turbinas de eixo vertical, instaladas no alto dos prédios, sem causar impacto paisagístico nas dunas e eliminando a perturbação acústica. "Quando é barato, muita gente não gosta", ironiza.
Calderoni defende que cidade sustentável é aquela que atende às necessidades fundamentais do cidadão, preservando o meio ambiente, usando racionalmente os recursos naturais, com constante inovação, de modo economicamente viável, socialmente justo, participativo, colaborativo e autonomizante. Tudo isto dentro de um processo de gestão interativa e num horizonte de longo prazo. "Numa cidade sustentável, o primeiro compromisso é de garantia de ocupação e renda para as pessoas", comenta.
Por estas premissas, o consultor defende a utilização do bagaço da mandioca (conhecido popularmente como manipueira), resultante das casas de farinha, para geração de energia em pequenas comunidades do semiárido. "Outra opção pode ser o resíduo da cana-de-açúcar, ou a produção de biomassa florestal -resíduos de madeira".

Rejeitos orgânicos
Uma cidade que se interesse em ser sustentável, na avaliação de Calderoni, precisa utilizar rejeitos orgânicos como fonte de geração energética. Segundo ele, a Europa utiliza 65% do esgoto para esta finalidade. "Na Suíça, o aproveitamento chega a 90%". No Brasil, as gestões municipais e estaduais passaram a atentar agora para esta possibilidade de uso.
Para comunidades rurais do semiárido, o consultor apresenta a utilização dos dejetos de animais como fonte de energia. Mais uma vez, a solução descentralizada e em pequena escala pode fazer a diferença: um porco produz quatro quilos de esterco por dia, o equivalente a 1,03 metros cúbicos de metano, necessários a abastecer uma residência de até três pessoas. "Você compra 150 matrizes de suíno por R$ 11 mil. Elas são capazes de gerar 230KWh/dia". Para ele, o esquema é viável em sistema de cooperativismo.

Fique por dentro
Menos entulho
Mais da metade (52%) dos resíduos sólidos produzidos no País é resultante da indústria da construção civil, ou seja, são entulho. Daí a importância de o setor adotar práticas de responsabilidade ambiental ainda na fase de projeto e, posteriormente, gestão das obras.
De acordo com Sabetai Calderoni, o entulho da construção civil é composto por argamassa, areia, cerâmicas, concretos, madeira, metais, papéis, plásticos, pedras, tijolos, tintas. "Isso é um grave problema para as cidades brasileiras e representa entre 40% e 60% do resíduo sólido urbano. Podemos reaproveitar parte desse material, transformando-o em areia" .
Na avaliação do especialista, a prefeituras podem e devem fazer parcerias com construtoras a fim de lançarem projetos de reciclagem de entulho. "Você pode usar estes resíduos em programas habitacionais, para fabricação de tijolos e casas", diz.
Ele acrescenta que o resíduo de construção civil também pode ser utilizado em pavimentação de vias, mobiliário urbano e drenagem urbana (para fazer bocas de lobo, manilhas).
SAMIRA DE CASTRO - REPÓRTER
Fonte: Diário do Nordeste

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